Foto: CMSM (Divulgação)
Aos 16 anos, Maria Clara sonha em participar dos Jogos Olímpicos no pentatlo moderno

Aos 16 anos, Maria Clara Comoretto Gall Mallmann já lida com uma rotina típica de atletas de alto rendimento. Representando Santa Maria no pentatlo moderno, a jovem divide o tempo entre os estudos no Colégio Militar de Santa Maria e uma carga semanal de treinos que envolve diferentes modalidades, com sessões distribuídas ao longo de praticamente todos os dias.
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O resultado mais recente, o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro sub-17, no fim de 2025, é apontado como reflexo direto dessa regularidade. A atleta participou do programa Papo D Esporte, da Rádio CDN, ao lado do professor e chefe da Educação Física do colégio, Tenente-Coronel Fraga, e detalhou aspectos técnicos da modalidade, além dos desafios da preparação.
O esporte
O pentatlo moderno é composto por esgrima, pista de obstáculos (antigamente, era hipismo), natação e o laser run, que combina corrida e provas de tiro a laser. Diferente de outras modalidades, todas as provas são realizadas em sequência, geralmente no mesmo turno, o que exige do atleta capacidade de adaptação rápida entre esforços físicos distintos e controle do tempo.
— (O espaço de tempo entre uma prova e outra) é um tempo para trocar de roupa. O que mais demora é a esgrima, dependendo do número de atletas. A gente acha que é o que menos cansa, mas pode atrasar, a gente fica esperando (o próximo combate) e a roupa é muito quente. A gente tem só esse intervalo para tirar a roupa de esgrima, colocar a da pista de obstáculos, depois colocar o traje da natação, que para mim é muito difícil. Ele é de um material difícil de colocar e a gente fica no desespero. Tinha que ter uma modalidade só para isso — explicou a atleta, em tom bem humorado.
Rotina ultrapassa múltiplos treinos por dia
A carga de treinos é um dos pontos que mais chamam atenção. Segundo o professor, a semana da atleta pode ultrapassar duas sessões por dia, dependendo da organização.
— Só na semana passada foram 17 treinos. Então, se a gente imaginar uma semana com sete dias, mesmo considerando o domingo como descanso, tem dias que são três treinamentos em três modalidades diferentes. Muitas vezes começa com corrida pela manhã, depois piscina à tarde e ainda um complemento de musculação — relata Fraga.
Além do volume, o comprometimento com a rotina é apontado como diferencial.
— Mesmo na educação física, em dia de chuva, é a primeira que levanta o braço para manter o treino de corrida. Faça sol, faça chuva, essa moça está treinando. É o que diferencia ela dos demais concorrentes. É uma dedicação que vai muito além. Quando ela conta para a gente, o dia dela parece que tem 30 horas, 40 horas — completa.
A própria atleta resume o impacto dessa rotina no dia a dia.
— Se fosse uma palavra para definir tudo isso, seria loucura — afirmou.
Conciliação com estudos exige disciplina
Mesmo com a carga intensa, Maria Clara mantém o compromisso com a vida escolar. A organização da rotina é fundamental para dar conta das duas frentes.
— O colégio nos cobra para a gente sempre dar conta de todas as matérias. Mas uma das coisas que eu nunca admiti foi faltar um treino para estudar. Acho que sempre tem como, é impossível que não dê para estudar e ir para o treino. Então, eu sempre dei um jeito, desde o meu ensino fundamental de conseguir ir para o treino e estudar. E é sempre muito gratificante isso, nos ensina muito a manter uma disciplina em tudo — conta Maria Clara.
Para o professor Fraga, o desempenho é reflexo direto da constância e da combinação entre desempenho esportivo e intelectual.
— Talvez a maioria dos nossos alunos que são os destaques da parte intelectual, são também os destaques da parte esportiva. Então, estudo e esporte caminham juntos. A gente vê alguns alunos que no terceiro ano, de certa forma, passam a abdicar da parte esportiva e dos treinamentos de equipe para poder focar no vestibular. Como professor de educação física, eu discordo dessa ideia. Como eu disse, esporte e estudo caminham juntos e não é à toa que o desempenho intelectual da Maria segue bem, assim como o sucesso nas suas competições — avalia o tenente-coronel.

Trajetória
Maria Clara iniciou no pentatlo moderno em 2023 e rapidamente passou a competir em alto nível. O primeiro destaque veio em competição internacional realizada em Santos (SP), em 2024, quando terminou na quarta posição. Mesmo assim, o bronze no Campeonato Brasileiro sub-17 de 2025 veio de forma surpreendente.
— Eu não estava dando nada para essa competição, porque eu acho que o meu ano foi bem "tenebroso". Eu confesso que fiquei bem surpresa com o resultado, porque estava tentando manter minha cabeça no lugar durante esse ano. Foi realmente bem surpreendente para mim — disse Maria Clara.
Muito forte no sistema de Colégios Militares, o pentatlo moderno não é tão praticado por civis. Atualmente, Maria Clara é a melhor gaúcha do ranking brasileiro da modalidade e, segundo ela, não existem outras atletas do esporte fora dos colégios militares do Estado.
Próximos passos e o grande objetivo
Para 2026, o calendário inclui disputas como a Copa BH de Pentatlo e o Campeonato Brasileiro, além de competições regionais. Algumas delas têm peso maior dentro do planejamento, como a disputada em Belo Horizonte.
— Para mim é muito importante, porque Então se eu obtiver o índice, isso vai valer para poder ir para competições sul-americanas e mundiais — explica.
O pentatlo moderno foi criado pelo Barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna, baseada no pentatlo disputado nos jogos antigos, constituído por provas que pretendiam demonstrar todas as aptidões físicas de um soldado.
E não poderia ser diferente, o objetivo final de Maria Clara é claro: chegar ao cenário olímpico.
— Minha mãe adora contar que quando eu tinha 3 anos, ela estava passando pelo meu quarto e me perguntou porque eu estava tentando fazer uma flexão. E eu respondi que estava me preparando para as Olimpíadas. Então, acho que realmente meu maior sonho hoje é ir para as Olimpíadas, é o sonho de qualquer atleta — afirmou.
A mãe, Mariúsa Comoretto, conta que a filha nutre o sonho desde cedo.
— Ela dizia que queria ir para as Olimpíadas e eu explicava que só adulto poderia ir. Eu imaginava assim: nós aqui, no interior do interior, e ela sonhando com Olimpíadas. Eis que, em uma edição, ela assiste uma atleta de 13 anos e começou a sapatear em frente à TV: "eu disse, eu disse! Pode atleta adolescente sim!" — relembra a mãe.
A atleta também destaca o papel da família e da escola no desenvolvimento esportivo.
— Eu sempre tive minha mãe por trás, me levando, me buscando, me incentivando. Isso faz muita diferença, porque a rotina é puxada. E se não fosse o colégio, eu nunca teria conhecido o pentatlo, então toda essa estrutura também foi fundamental — relatou.
Maria Clara conta com parcerias, como a Golfinhos e a Dermapelle, mas busca outros patrocínios para ajudar com os custos do esporte e seguir sonhando em colocar, mais uma vez, Santa Maria no cenário olímpico.
Confira a entrevista